Mecânico de Lajeado completa 60 anos trabalhando com Fuscas

Correio Mecânico
outubro21/ 2021

Sentado em meio à oficina que mantém desde 1970, em Lajeado, e rodeado pelos carros que representam sua vida de trabalho, resiliência e empenho, Romeu Ernesto Eckhardt, 75 anos, conta um pouco do que aconteceu durante os 60 anos como mecânico de carros refrigerados a ar, em especial o Fusca. Há exatamente seis décadas, no dia 11 de setembro de 1961, Romeu trocou a carreira de padeiro pela de mecânico. Ele garante que continuará a trabalhar até seu último dia neste local, que faz divisa entre os bairros Florestal e Americano.

A riqueza de detalhes com que descreve o primeiro contato com seu empregador, no antigo prédio da concessionária Motomecânica (onde hoje é a Caixa), indica o quanto foi importante para sua vida e de sua família: a esposa Lurdes Eckhardt, 68 anos; e os filhos Carlos (43) e Paulo Felipe (38).

Romeu foi pedir emprego às 7h. Sabia que naquele momento um dos fundadores da Motomecânica, Pascoal Ferrari, abria as portas da chapeação e da mecânica. “Lembro que ele tinha quase 80 anos. Era um senhor, segurando aquele molho de chaves que mantinha com ele”, descreve. “Lá pelas tantas, depois de a gente começar a conversar, aquele molho de chaves caiu dentro de uma boca de lobo. Aquilo era sujo, pois todos limpavam a mão ali. Levantei a grade, comecei a procurar e consegui encontrar a chave”, recorda.

Esse gesto foi observado por Pascoal. “Depois de me lavar na mangueira, de lavar a chave, ele pediu ‘o que o senhor queria afinal’? Imagina, eu tinha 15 anos, e ele me chamou de senhor. Isso me marcou muito”. Foi então que Romeu pediu o emprego, e a resposta daquele homem lhe mudou a vida. “Ele me deu uma batida no ombro e disse que eu poderia começar logo”, relata o mecânico, enquanto olha para as mãos que guardam as marcas de tanto trabalho nos anos seguintes. “Tudo por causa de um molho de chave. As coisas estão nos detalhes”.

Orgulho de ser mecânico e paixão pelos Fuscas

A primeira responsabilidade de Romeu foi limpar a oficina e ajudar na lubrificação de peças. Ele lembra que na hora de limpar as mesas sujava o seu macacão de propósito para, depois, na caminhada até sua casa, deixar claro para todos que ele era mecânico. “Sempre tive muito orgulho de ser mecânico.”

Em questão de poucos meses ele foi levado para a sessão de motor e caixa. “Viram que eu não me assustava, aí comecei a desmontar as caixas dos Fuscas e das Kombi”. Desde então ele trabalha exclusivamente com a caixa.

O mecânico comenta que já teve mais de 40 carros com caixa de carro refrigerado a ar. Lembra de cada um daqueles que já não estão mais com ele, e guarda fotografias da maioria. Hoje, ele mantém na sua coleção dez Fuscas, três Variantes, uma TL, um Santana e um Passat. Garante que nunca mexeu em outro carro e quer trabalhar neles até o último dia. “Eu gosto de trabalhar em Fusca e vou trabalhar até o último dia. Vou fazer o que? Ficar sentado? Isso pra mim não existe. Tem que estar com a mente ocupada e o corpo ocupado”.

O primeiro carro construiu com peças velhas encontradas em desmanches, o que deu o apelido para o carro de Fusca Mil e Um. É justamente essa facilidade de mexer com as peças e a simplicidade da mecânica que o atraem.

“Pra tu tirar um motor de um Fusca, ele só vai encaixado lá dentro. Não leva 10 minutos. Então é um carro simples de trabalhar, a caixa dele não incomoda nunca. Máximo que pode escapar é uma quarta marcha, aí desmonta, retifica as engrenagens, troca os anéis sincronizados e já tá pronto.

Família

Romeu divide a rotina de trabalho com o filho Paulo Felipe, a quem ensinou a mexer nos carros para seguir a carreira; um trabalho que sempre terá demanda em todo o lugar do mundo, diz. O filho faz questão de agradecer pelos ensinamentos e pela companhia. “Meu pai para mim é o maior exemplo de todos. Me ensinou tudo o que sei. A maior satisfação é poder trabalhar com ele, poder me divertir com ele. Só isso já vale tudo que tem na vida. Não tem dinheiro que pague isso”.

Homenagem

Essa trajetória vai render homenagem da Motomecânica, concessionária da Volkswagen de Lajeado. A data ainda será definida. Ele já guarda com orgulho uma placa que recebeu da empresa.

Saiba mais

Romeu é natural de Herval, em Venâncio Aires, de onde veio com apenas 5 anos. Sua família foi morar na área onde hoje fica o Banrisul. Em 1970, ele vendeu o imóvel e abriu a oficina, onde na época sequer existia a rua que corta a frente da mecânica. Hoje, orgulha-se de dizer que é reconhecido na rua. “As pessoas sempre pedem se eu continuo trabalhando. Sempre respondo que é até o último dia. E sempre penso positivo. Tem que fazer a cosia acontecer. E é com tudo assim”.

 

CRÉDITOS: Reportagem Leonardo Heisler/Agora no Vale/Valegaragem

https://agoranovale.com.br/

 

 

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